Na noite de 16 de Julho de 1918, na cave da Casa Ipatiev em Ekaterinburgo, Nicolau II apertou a mão de Alexandra e viu os filhos alinharem-se contra a parede, obedientes como sempre, confiantes como as crianças devem ser.
Os três meses anteriores tinham sido uma descida aos infernos. As janelas estavam pintadas de branco por dentro, as portas guardadas por homens que o tratavam por “Cidadão Romanov” com um desprezo calculado, frio, quase ensaiado. Alexei tinha emagrecido tanto que Nicolau conseguia levá-lo ao colo pelas escadas abaixo — o rapaz, já com catorze anos, pesava menos do que uma criança pequena, as pernas demasiado frágeis para sustentar o próprio corpo.
As meninas tinham cosido as joias nos espartilhos, diamantes e pérolas enfiados em tecido grosso, na esperança frágil de que esses pequenos tesouros pudessem comprar-lhes a liberdade se algum resgate alguma vez chegasse.
Mas o resgate nunca chegou. O Exército Branco aproximava-se, sim, mas devagar demais, e os bolcheviques nunca permitiriam que a família imperial se tornasse num símbolo vivo da resistência. Nicolau sabia disso. Talvez já soubesse há semanas, desde que Yurovsky, o novo comandante, começara a olhar para eles com aqueles olhos que já os mediam como se fossem cadáveres.
Às duas e quinze da madrugada, Yakov Yurovsky acordou-os com a mentira de que precisavam de ser transferidos para um local mais seguro, que havia perigo iminente, que a cidade estava a cair. Nicolau pegou em Alexei ao colo, sentiu o coração do rapaz bater contra o seu peito, aquele coração frágil que tantas noites o mantivera acordado com febres e hemorragias. Alexandra seguiu com a sua enfermeira, e atrás vieram as quatro filhas de roupão branco, os cabelos compridos soltos sobre os ombros,
Anastasia a apertar o seu cãozinho contra o peito como se ele fosse a única coisa sólida no mundo. A sala da cave estava vazia, o chão húmido, o ar espesso com um cheiro que Nicolau se recusava a nomear — não era medo, era outra coisa. Era o cheiro da morte à espera. Os guardas entraram com pistolas, e ele compreendeu tudo num instante. Tentou falar, exigir uma explicação, mas as palavras ficaram-lhe presas na garganta. O que se pode dizer quando se olha nos olhos de quem já decidiu que vai matá-lo? Alexandra fez o sinal da cruz, lentamente, como se estivesse na capela do palácio em Tsarskoye Selo. Olga endireitou-se como um soldado, os ombros para trás, o queixo erguido.
Tatiana procurou a mão da irmã. Maria sussurrou qualquer coisa a Anastasia, que começou a rir nervosamente, um riso agudo e quebrado que perfurou o silêncio como um sino partido. Nicolau puxou Alexei para mais perto de si, sentiu o rapaz a tremer da cabeça aos pés, e pensou, naquele último fragmento de tempo que ainda lhe pertencia, não no império, não no destino, não nos trezentos anos da dinastia Romanov. Pensou nos fortes de neve em Tobolsk, nos hinos de Natal, na mão de Alexandra naquela tarde de Março em que escolhera a paz em vez do poder.
Lembrou-se de Alexei a dar os primeiros passos, das risadas de Olga na neve, do cheiro a pinho na floresta de Livadia. Pensou que tudo aquilo ia morrer com ele. O primeiro tiro atingiu-o no peito, e ele caiu para a frente, ainda a segurar o filho, ainda a tentar proteger com o corpo aquele rapaz que o mundo sempre tratara com demasiada crueldade. Ainda ouviu, antes de o silêncio o levar, os gritos das filhas, os tiros que não paravam, o tinir das balas nos diamantes cosidos nos espartilhos — as joias que deveriam salvá-las só prolongaram o horror, minutos intermináveis em que as paredes da cave se encharcaram de sangue.
O último czar da Rússia morreu como vivera: dedicado à família, fiel ao seu Deus e, no fim, impotente contra as marés da história. Mas na cave da Casa Ipatiev, naquela madrugada de Julho, o que ficou não foi um czar nem um imperador. Foi um pai a cair de mãos dadas com o filho. E talvez seja essa a imagem que mais doa — não a queda de um trono, mas a de um homem que, mesmo na hora da sua aniquilação, recusou soltar a mão de quem amava.
